No sábado, dia 8, uma multidão aguardava ansiosamente pelo início do penúltimo desfile da Festa da Uva, no centro da cidade. Com o tema Na Alegria da Diversidade, um dos blocos mais aplaudidos nos desfiles anteriores era o que contava com a participação de haitianos, senegaleses e nordestinos que, deixando suas cidades e países, vieram tentar a sorte na Serra Gaúcha. Com acenos, brincadeiras e sorrisos, agradeciam pela receptividade da comunidade caxiense. Mas a alegria na diversidade, pregada durante os dias festivos, se transformou em tristeza para três passageiros do transporte coletivo, no bairro Planalto Rio Branco.
Uma empregada doméstica de 45 anos, o filho de 13 e um auxiliar de limpeza senegalês, 33, voltavam para suas casas. No bairro, quatro jovens embarcaram no coletivo pela porta central, sem pagar a passagem. De acordo com a mulher, o grupo mexeu com uma passageira e, em seguida, ofendeu o africano, dizendo que merecia apanhar. Pelo relato dela, deram um tapa na nuca do homem e passaram a ofendê-lo verbalmente, chamando-o de macaco. Quando a doméstica tentou intervir nas injúrias, o filho dela foi agredido com um tapa no rosto. O senegalês também foi agredido e a surra continuou até o ônibus parar.
Os agressores fugiram, mas uma viatura da Brigada Militar localizou o quarteto. Na delegacia, a doméstica reconheceu todos os jovens e apontou um deles, de 16 anos, como principal agressor. De acordo com a delegada Suely Rech, da Delegacia de Proteção da Criança e Adolescente, o inquérito sobre o caso está concluído e agora será analisado pelo Ministério Público. Os envolvidos responderão por crime de injúria qualificada. Se confirmadas as suspeitas e houver condenação na Justiça, para os menores — dois de 16 e um de 17 anos —, a pena será restrita a medidas socioeducativas. Para o único maior de idade, que tem 18 anos, a pena pode ser de um a três anos de detenção. Em depoimento à polícia, apenas um dos envolvidos confessou as agressões. Ele tem 17 anos e se disse arrependido.
— Eles estão sendo acusados de injúria qualificada. Injúria é o ato de ofender a dignidade da pessoa. O que a qualifica é a utilização de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião e origem. Dessa forma, não podemos atribuir ao ocorrido crime resultante de discriminação ou preconceito de raça, visto que este impede de uma pessoa usufruir seus direitos como cidadão — explica a delegada.
'Me chamaram de negro vagabundo', diz senegalês vítima de agressão em Caxias
— Nunca havia sido tratado assim no Brasil.
O lamento é do jovem senegalês de 26 anos vítima de racismo, há uma semana, dentro de um ônibus de transporte público em Caxias do Sul. Ele mora há um ano na cidade. Naquele sábado, depois das 18h, estava no Centro e pegou um ônibus da linha Planalto/Rio Branco. O destino era a própria residência, no Rosário II. Minutos depois, três jovens entraram no veículo.
— Eles passaram e me chamaram de haitiano. Dois deles sentaram atrás de mim. O terceiro no outro lado. Um deles me deu um tapa na nuca e eu levantei. Perguntei se estavam brincando. Eles disseram que não. Perguntei por que estavam fazendo isso. Eles diziam "que foi, haitiano"? Eu falei que era senegalês, que desceria em duas paradas e se quisessem me dar outro tapa que esperassem eu descer. Ele (o que desferiu o tapa) perguntou o que eu iria fazer. Eu disse que não sabia. Ele então se levantou e me empurrou. Me chamaram de negro vagabundo — relembra.
De acordo com o senegalês, os agressores o chamavam também de haitiano e macaco. Embora ele tentasse levantar, era impedido com empurrões. O menino de 13 anos, no banco ao lado com a mãe, ergueu-se. Também foi acometido com um tapa no rosto, pelo mesmo rapaz.
— O que vi foi o motorista parar o ônibus e ligar para a Brigada Militar. Os três começaram a descer do ônibus e me puxavam pela camisa. Outras pessoas impediram que eu descesse com eles. O motorista fechou a porta e eles fugiram — completa.
Em casa, o jovem chorou. Veio para o Brasil para trabalhar. Há um mês, conseguiu emprego como auxiliar de limpeza. No Senegal, ficaram os pais, os seis irmãos, a mulher e o filho de sete anos. Não teve coragem de contar o que aconteceu. Se encontrasse os três agressores novamente, apenas uma frase seria dita a eles:
— Não façam um ato feio desses com uma pessoa de novo, é muito triste.
'Ele deu um tapa na cara do meu filho e me mandou calar a boca', disse mãe de menino de 13 anos agredido em ônibus de Caxias do Sul
Mãe do menino de 13 anos agredido por quatro jovens dentro de um ônibus do transporte coletivo sábado, em Caxias, a empregada doméstica relata que a agressão veio de graça, sem que ninguém tivesse provocado os acusados.
Apesar de também ter sido agredida verbalmente, ela diz que é o filho quem mais tem sofrido. Ela buscará ajuda psicológica para o estudante, que não dorme bem e está traumatizado, veja o que ela disse em entrevista ao jornal Pioneiro.
Pioneiro - Como tudo aconteceu?
Apesar de também ter sido agredida verbalmente, ela diz que é o filho quem mais tem sofrido. Ela buscará ajuda psicológica para o estudante, que não dorme bem e está traumatizado, veja o que ela disse em entrevista ao jornal Pioneiro.
Pioneiro - Como tudo aconteceu?
Era 18h50min (de sábado) quando embarcamos no ônibus. Sempre sento perto da porta. Eu sentei no lado da janela e o meu filho do meu lado. Depois entrou esse senegalês. Em uma parada, esses quatro caras pediram carona para o motorista e entraram pela porta do meio. Logo que entraram, olharam para esse moreno e para nós e disseram: "bah, escureceu. Vai dar um temporal, só negrada desse lado". Fiquei na minha, quatro homens, o que eu ia fazer. Mas eles começaram a agredir o senegalês e a chamar ele de macaco. Davam tapas na cabeça dele e diziam: "olha, nunca vi macaco andar de ônibus, achava que só andava de árvore em árvore". Chegou uma hora que ele(senegalês) se irritou, levantou e falou: "vocês estão brincando comigo, mas eu sou trabalhador, tem famílias dentro do ônibus".
Pioneiro - E foi aí que começou a agressão?
Um deles parou na frente do senegalês e disparou: "sabe como é que funciona aqui no Brasil, os negros, os macacos apanham só na cara" e foi quando deu um tapão na cara do senegalês.
Pioneiro - E o que você fez?
Me levantei, fui para um canto e puxei meu filho. Gritei: "pelo amor de Deus, não vão brigar!". Mas aí não deu tempo nem da gente sair do canto e um deles deu um tapa na cara do meu filho. Pedi que ele não fizesse aquilo porque o meu filho era menor. Ele me mandou calar a boca e me chamou de vagabunda.
Pioneiro - E o ônibus seguia andando?
Todo mundo gritava para o motorista parar, mas ele demorou umas dez quadras. Foi quando parou perto do Cemitério do Rosário II. E quando abriu a porta, eles puxaram o senegalês lá para fora. Nós começamos a gritar, porque a gente pensava que eles iam matar o cara. As pessoas tentavam puxar o senegalês para dentro, quando deu, fecharam a porta. Uma viatura da Brigada chegou e outra conseguiu pegar eles mais adiante.
Pioneiro - E como está seu filho?
Na segunda e terça ele não foi para escola. Ele está com medo de pegar ônibus. Ele anda com dor no estômago, perdendo o sono. Acho que vou ter que procurar uma psicóloga para ele.
Pioneiro - E o que você sente em relação a tudo isso?
Revolta. Eu sou mãe e nunca bati na cara do meu filho. Aí vem um vagabundo, bate e não acontece nada.
Direitos Humanos
A Comissão de Direitos Humanos, Segurança e Cidadania da Câmara de Vereadores também toma providências sobre o caso. Uma cópia do boletim de ocorrência será enviado ao Ministério Público com um pedido de providências.
— Normalmente, o Ministério Público tem tratado como prioridade os encaminhamentos enviados por nós. Uma das vítimas, o senegalês, foi até a Coordenadoria de Igualdade Racial e relatou o ocorrido. O racismo é crime inafiançável. Não dá para admitir que hoje ainda existam pessoas que acreditem que uma raça é superior a outra. Ainda falta coragem para fazer a denúncia. Algumas situações chegam até nós, mas é claro que não são todas — comentou a presidente da comissão, a vereadora Denise Pessôa (PT).
Foto: Jonas Ramos / Agencia RBS




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